Dois contos
Um dos primeiros contos de terror, não terror sobrenatural, mas sim psicológico, que me fez efetivamente sentir medo. Muitos são admiráveis pela construção, pela estilo, pela perfeição da forma, pela beleza das imagens. Mas só esse, dos clássicos do século XIX, fez, até agora, com que eu não conseguisse desgrudar os olhos das linhas que me congelavam o espírito: "O Coração Denunciador", de Edgar Allan Poe. O narrador espera no corredor, na porta do quarto, de noite, o momento ideal para matar o velho que dorme e que tem olhos de abutre. Teme que um movimento seu acorde o velho. E espera na porta esse momento enquanto ouve atentamente as batidas do coração da futura vítima e nós prendemos, como ele, a respiração.
Totalmente oposto, mas não menos impressionante, é o "Brincadeirinha", de Tchekov. A sutileza do texto disfarça uma crueldade, um sadismo sentimental que espanta - e diverte; o sofrimento alheio, não raro, nos provoca risadas. O rapaz desce com a garota, que o ama, em um trenó por uma encosta cheia de neve. A descida aterroriza a garota, que só encontra a coragem necessária no sentimento que nutre. Durante a descida, o jovem sussurra no ouvido da moça: "Te amo, Nádia..." e essas palavras tão desejadas confundem-se, no ouvido amoroso, com o vento acelerado da descida, sibilando forte e constante. Lá embaixo, ela não sabe se quem o dissera foi o amado ou se fora ilusão causada pelo vento e pede, a despeito do pavor, uma nova descida. E torna a ouvir as doces palavras, somente para em seguida tornar a ficar em dúvida sobre sua autoria. E assim segue o mistério. Tchekov disse certa vez que o contista deveria cortar o início e o fim de seus contos, pois é nesses trechos que mais se mente. Lendo Poe, de estilo contrário - o outro lado do espelho do conto -, percebe-se claramente o que queria dizer o russo: é no início e no fim, geralmente, que desfaz-se ou explica-se ou cria-se, normalmente, a chave para um entendimento total, para uma elucidação dos sentidos da narrativa que, para o russo, era completamente artificial. A vida seria, para ele, muito mais gratuidade que causalidade.
Leiam os dois.




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